Voltamos hoje a abordar um tema dito polêmico, mas sem a intenção de polemizar. Refiro-me a interpretação da Bíblia, que segundo opinião de alguns é depreciada pelos espíritas, acusação esta que considero injusta. Os espíritas apenas tem uma visão crítica da mesma, não aceitando cegamente seus postulados.
Chega às minhas mãos um artigo publicado por um católico, no jornal Diário da Manhã, de Pelotas, tempos atrás, com o título "A BÍBLIA É MAIS DIFÍCIL DO QUE PARECE", cujo autor é MÁRIO EUGENIO SATURNO, professor de filosofia ciências e letras de Catanduva SP, e congregado mariano. Surpreendentemente, notei que a opinião de alguém ligado à igreja católica coincidia em muitos pontos com a minha, que por ser espírita, era dada como suspeita para falar da Bíblia.
Resolví então transcrever alguns pontos do artigo publicado no referido jornal, para provar que muitos católicos ou profitentes de outras religiões bíblicas também procuram analisá-la racionalmente, sem querer com isso diminuir sua importância.
Vejamos o que diz Mário Eugenio: -" Ao contrário do que se pensa, os católicos também valorizam a Bíblia, assim como outros símbolos de fé cristã, só que cada coisa a seu tempo. Certamente voce já ouviu dizer que basta ler a Bíblia conhecer Deus e seus propósitos para nós. Porém, pelo que observamos, chegamos a conclusão que Deus não fala coisa com coisa. É muita gente "inspirada" pelo Espírito Santo dando mensagens diferentes! Será que existe mais de um Espírito Santo? Continua o católico Mário Eugenio "-Ora, Deus não é confuso, nem produz divisão, Deus é amor, união, perdão. O grande problema é que a Bíblia é uma coleção de livros, que foram escritos em épocas diferentes e em línguas diferentes: hebraico, aramaico, e grego". " Por volta do ano 300 a.c. Ptolomeu II mandou traduzir o ANTIGO TESTAMENTO, a tradução ficou conhecida como A BÍBLIA DOS SETENTA . Acontece que vários originais em hebraico foram perdidos, como parte de Daniel (cap. 13 e 14) restando apenas a tradução grega. Sem o original hebraico, algumas religiões e seitas não aceitam o texto grego." "Outro problema é que a Bíblia foi copiada, copiada e copiada. Cópia da cópia da cópia acabou produzindo uma infinidade de versões da mesma. E, consequentemente, erros foram introduzidos. Há um agravante, a língua hebraica da Bíblia não tinha vogais, somente consoantes. Só a partir do século VII d.c. acrescentou-se vogais ao Antigo Testamento".
Quem conhece bem uma outra língua defronta-se com um grande problema quando quer expressar uma idéia ou sentimento nas duas línguas. Traduzir não é simplesmente usar um dicionário e substituir palavras. A equivalência não é simples e raramente traduz a idéia completamente. Aliás, jamais reproduz a sonoridade na língua original, como em um poema. É o que se diz do Pentateuco ( os cinco primeiros livros da Bíblia), precisaríamos estudar hebraico para entender a mensagem de Deus. A própria composição da Bíblia é complicada. Por exemplo, acreditou-se que o pentateuco era obra de Moisés, porém, análises literárias feitas nos últimos cem anos concluíram que o pentateuco é o resultado de quatro documentos diferentes, mas escritos muito tempo depois de Moisés.
Seguimos adiante então, dando a palavra à Mario Eugenio: "- A mais antiga é a narrativa chamada javista, já que usa o nome IAHWEH, como revelado a Moisés; teria sido escrita por volta do século IX a.c. Depois surgiu a narrativa Eloísta, pois usa o nome mais comum de Deus, ELOHIM. As duas narrativas foram juntadas e depois, o Deuteronômio foi acrescentado. Surgiu, por último, o código sacerdotal." "Então, transformou-se na forma como conhecemos hoje. Pode-se afirmar que no Gênesis há dois relatos da Criação (1, 1-2, 4a e 2, 4b-3,24); há duas genealogias de Caim (4,17 e 5,17); dois relatos combinados do dilúvio (6-b); duas expulsões de Àgar; tres narrativas da desventura de Sara (12, 10-20;20, 26, 1-11); duas histórias combinadas de José nos últimos capítulos. No Êxodo temos duas narrações da vocação de Moisés (3,1-4, 17 e 6,2 7,7); dois milagres da água, e tantas outras passagens, que não reproduziremos para não tornar a leitura muito cansativa.
Assim é toda a Bíblia, de complicada compreensão para teólogos, linguistas, literários, historiadores, sociológos, em suma, para todos os doutos. Infelizmente, não existe um "espírito santo" que instrua os leigos na área, e traduza a "ideia" original do texto.
Depois de tudo o que foi dito, pelo articulista acima mencionado, resta muito pouco a acrescentar. Apenas gostaríamos de frisar mais uma vez que NÃO É PECADO PENSAR.
No momento em que "nosso pai que está no ceú" como dizia JESUS, dotou-nos de inteligência e um cérebro, devemos usar esses dons divinos. O ser humano é conservador por excelência, e todas as idéias novas, a princípio, foram recebidas com reservas. Que o digam os grandes gênios da humanidade, pois ao revelarem suas idéias, sempre eram taxados de loucos. Loucos abençoados, que o tempo encarregou-se de mostrar que estavam certos.
Portanto, meus amigos, procurem tirar as conclusões por sí mesmos, afinal de contas, os espíritas há muito tempo aboliram a fé céga.
Somos adeptos da FÉ RACIOCINADA, graças a Deus.
ATÉ A PRÓXIMA.
Francisco Corrêa, vice presidente do G. E. ALAN KARDEC.
Nenhum comentário:
Postar um comentário